Corra de Flex como você correria do Severino Cavalcanti nu, de cara
pintada e uma espada de samurai na mão.
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Jonas Galvez | http://jonasgalvez.com
Lead Developer, Blogamundo | http://blogamundo.com
Assim como toda grande corporação produtora de software, a
Macromedia mantém um ciclo infinito de releases. Talvez não
propriamente infinito, mas com término indeterminado. É isso o que
mantém a empresa viva. Porém, depois de algum tempo, fica difícil
produzir novas versões que genuinamente justificam um upgrade. Com
isso, observa-se duas táticas em ação:
1. Recursos triviais, de fácil implementação, começam a ser
inexplicavelmente adiados, reservados como items preciosos no
marketing de futuras versões;
2. A complexidade do software aumenta significantemente. A
forma mais comum de aumentar essa complexidade é induzir
novos frameworks e metodologias de trabalho. O objetivo final
é justificar a criação de novos softwares, frequentemente
derivados do original, focados em grupos de clientes mais
financeiramente capazes e menos protegidos por criteriação
tecnológica de alto rigor (só me lembro de três instituições
brasileiras que compraram licenças do Macromedia Generator há
alguns anos atrás, e todas elas eram governamentais ou
educacionais -- não é de causar muita surpresa).
Isso é relevante pois quando se identifica a razão pela qual um
software foi produzido, ganha-se uma boa noção de seu real mérito e
qualidade técnica. Flex foi feito para gerar lucro, não por que
algum fulano na Macromedia teve uma idéia brilhante para facilitar
o desenvolvimento de aplicativos "empresariais".
Se baseia na absurda idéia de gerar aplicativos HTML-like, com
alguns widgets dopados de eye-candy, com notação XML, para uma
plataforma como o Flash Player. Flex, sem dúvida é "empresarial",
no sentido de que um aplicativo Flex nunca seria publicamente
aceito (por favor, poupe-nos de links de showcases) e só será visto
rodando permanentemente numa intranet.
Flex definitivamente é "empresarial", porque se baseia em várias
camadas de complexidade para agregar valor (agragação de valor é
palavra-chave no mundo Java também -- pense em J2EE, EJB, Struts
etc). Por isso, assim como toda tecnologia proprietária, sempre
haverá um grande número de defensores. Flex é financeiramente
interessante e capaz de manter a relação de promiscuidade de
treinamento e consultoria que se observa nas grandes empresas.
No fim, essas camadas de complexidade, com a exceção de um grupo
pequeno de funcionalidades que são estrategicamente feitas com
"drag-and-drop" para encher os olhos dos gerentes de TI, alimentam
o mencionado circulo vicioso de treinamento e consultoria, e geram
camuflagem para o aumento de tempo de desenvolvimento. Isso,
naturalmente, não é problema no mundo corporativo, já que o
programador de cúbiculo de multi-nacional só tem que trabalhar oito
horas por dia, e já perdeu a noção do termo "deadline".
Mas agora, falando em termos técnicos, há pelo menos um fato sobre
Flex que a Macromedia NÃO deixa claro em ponto algum, mas nenhum
evangelizador da tecnologia é capaz de negar: é impossível, ou pelo
menos impraticável, produzir aplicativos Flash com os requerimentos
visuais normalmente definidos, usando MXML. Flex é uma ferramenta
para desenvolver aplicativos HTML-like, and that's it.
É suficientemente simples de usar e entender para o programador de
cubículo (que não entende HTML/CSS mesmo, e depende de VisualStudio
ou Dreamweaver). Para alguns tipos seletos de interface, pode
resultar em menor tempo de programação, com o downside de só rodar
no FP, se basear em linguagem non-standard, ter uma notável
limitação de recursos e adicionar enorme dificuldade quando se
precisa estender funcionalidade.
Para qualquer programador que se julgue "independente" e não goste
de limitações em seu ambiente de desenvolvimento (acredito que
todos que estão nesta lista), Flex não se qualifica nem para o
julgamento preliminar. Para qualquer programador esperto que está
fazendo carreira em empresa, entretanto, é *definitivamente* uma
ótima opção. Uma ótima opção para a Macromedia, é claro, e para
os sangue-sugas que vão se beneficiar da mais nova inteligente e
bem-pensada aquisição tecnológica da empresa.