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Incrível !! Você tem muito saber nesta cabeça. Resta-me, além de admirar, tentar escrever algo de meu próprio saber, em um estilo que espero corresponder minimamente ao seu : pela sua forma de escrever, você faz alguém gostar de um conteúdo que não lhe é prioridade. Confesso que estou sendo atraido aos temas que você discorre devido ao seu cativante estilo. E me diz aí : Alguém tão apto a escrever para "grandes" veículos de comunicação, assim como já o fez em suas "batalhas" como jornalista e poeta, como pode estar recluso em seu maravilhoso recanto, tranquilo a efluvescer conhecimento gratuito através de bilhares de bytes internáuticos ? Tenho cá minhas opiniões, porém é melhor aguardar o seu esclarecimento ( a dica está em "grandes" ).
Os seus ricos comentários, que seguem com cópia abaixo, merecem um título e merecem ser publicados em outros sites. Como você já notou, minha índole instiga-me a disseminar, compartilhando, todo conhecimento inédito, peculiar, inovador, alternativo e construtivo.
Desta vez darei preferência a enviar uma cópia, ou talvez criar uma página, no grupo Ambiente Liberdade.
CRÔNICA INFORMAL DE RAUL LONGO - AS COCÁS - RUI BARBOSA - ORIGENS ÉTNICAS DOS BRASILEIROS - VALORES DA ÁFRICA
Luiz:
Essa do Cocás é nova pra mim. Conhecia, pela Bahia mesmo, as de Guiné, como lhe contou o irmão.
Já lá no Rio de Janeiro, elas são de Angola. Mas isso é um problema étnico geográfico que remonta ao pai do Rui Barbosa. Não sei se você já ouviu falar desse episódio, mas o tão decantado Rui Barbosa, além de precursor de Carlos Lacerda, o mestre do entreguismo carinhosamente evocado por FHC, também é culpado por hoje não termos como definir regionalmente nossas origens africanas.
O que é uma brutal defasagem cultural.
Veja você que nos Estados Unidos, para onde os ingleses (donos do tráfego e mercado negreiro) mandaram os povos nômades por serem de mais fácil controle, visto terem menor formação comunitária e cultura autóctone, além de mais resistência por adaptação às intempéries e dificuldades naturais à vida nômade; se é possível definir a região de origem e até remontar a genealogia de cada afro-descendente.
Assim lá se fez possível a um escritor produzir o bestseller "Raízes", do qual se fez um seriado de TV exibido aqui no Brasil, protagonizado pelo personagem Guntha Kintê.
Já para nós isso se faz impossível, porque todos os negros que chegavam ao Brasil, depois de registrados na alfândega do porto de Salvador, eram transladados (misturadamente para evitar identificação entre eles) ao resto do país.
Desgraçadamente, o funcionário da alfândega responsável pelo registro dessa gente, era o pai do Rui Barbosa que, estudante lá no Rio de Janeiro, participava dos movimentos abolicionistas.
Uma vez conheci uma moça que em Ubatuba (SP divisa com RJ) era do PT, mas na sua terra, Ribeirão Preto, tinha a família da UDR. Hoje a moça (nem tanto) está no PSOL. Pois semelhante foi o Rui quando, ao perceber que o tal do abolicionismo ia vingar mesmo, escreveu ao pai para alforriar os escravos da família e por fim aos tais registros. Claro! Iria pegar mal muito mal à reputação de homem moderno e justo, autor da antológica frase de que um dia se teria vergonha de ser honesto.
Antecipou-se às próprias previsões, esperto que era. Tanto que foi o advogado dos interesses da companhia canadense de Luz e Energia, a Light, quando se instalou no Brasil. Quase um século depois, vendeu seu material já sucateado por um bom preço e alguma comissão a outro entreguista do erário público, o Paulo Salim Maluf, que além da compra superfaturada fundou a Eletropaulo: "Mais um marco de conquista, dos paulistas, trabalhista, progressistas..." e aquela enfiada de rima pobre do Guilherme de Almeida que tanto ufana a gente bandeirante.
Não se preocupe que não vou falar aqui sobre como os bandeirantes eram uns bugreiros desumanos e grosseiros, me atendo ao assunto das Cocás, que para uns é de Guiné, e para outros Galinha d'Angola.
Aqui em Santa Catarina, por exemplo, são chamadas de Galinha Angolista. Mas nos esses "por aí", há quem as chame de Galinha da Numídia. A Numídia fica ali por onde hoje é a Argélia, no norte da África. No entanto, se não conseguimos mais nem definir de onde vêm nossa gente, que se dirá das galinhas!
Daí que temos uma visão bastante distorcida nessa questão de qualificar as pessoas de pele escura, generalizando-as todas por "um negro" ou "uma negra", "negrinha".
Se é branco, é um "italianinho", ou uma "polaca, portuguesa, alemoa", qualquer algo que distingue e personaliza a pessoa por país ou região européia. Já o negro, é negro e pronto. Tá resolvido.
O escambau! Veja você, que além de muito maior do que a Europa, e compreendendo maior diversidade de meridianos, portanto climática (o que influi muito em diversidades culturais), o continente africano registra a mais antiga ancestralidade da presença humana no planeta Terra.
Você falou em Guiné. A cultura dos naturais da Guiné era riquíssima: ceramistas, variada culinária, primorosos agricultores, etc. Já se os antecendentes do indivíduo provêm de Moçambique, provavelmente outros serão seus atavismos e pendões de talento, afinal, como é sabido, todos temos nossas tendências e potenciais hereditários.
Por causa do pai do Rui Barbosa não temos aqui como definir isso, como aproveitar isso.
Mas voltando a galinha antes que ela esfrie, nos interiores de São Paulo e beirando Minas Gerais, são conhecidas por "Tô-Fraca", e este entrelaçar de assuntos me lembrou antigo caso levado as barras do tribunal de uma pequena cidade interiorana, pelo proprietário de umas quantas "cocás", devidamente almoçadas e jantadas por um pobre capiau dono de reduzido roçado de milho.
O juiz, ainda que pendente ao reclamante, foi obrigado a acatar as razões do reclamado, pois ao lhe pedir a versão dos fatos, o mesmo explicou:
"- Sabe como é Sr. Juiz. Tenho lá o Juvenal pra me avisar do despontar do sol. Mas galo macho que é, não serve pra outra coisa. Já a Quitéria e a Maricota ajudam no sustento e na dieta, porque a terra é tão pouca que se não fosse os ovinhos delas, a gente só passava a milho todo santo dia!
Mas apareceu essas galinhas voadeiras aí do Coronel, e ficaram ciscando ali no meu terreiro. Nos principes, não dei bola. Mas as bichinha ficavam naquele "tô-fraca! tô-fraca! tô-fraca", e a muié que tem amor muito grande nas criação, achô de dar milho pras bichinha.
Quanto mais milho dava, mais elas reclamava: "tô-fraca! tô-fraca! tô-fraca". Todo dia!
Nessa toada o milho foi se acabando, e não tinha mais nem pra família do Juvenal, de modo que ficamô também sem os ovos. Não é pra falar mal, mas essas do Coronel só faziam comer , pois botar botavam sabe Deus lá onde.
De modo que quem foi enfraquecendo fomos nóis mesmo, até que pra não morrê de fome por falta e ovo e milho, o jeito foi acabar com a fraqueza das penosas e mandá elas tudo pra panela.
É isso. Mas por Cocás, eu não conhecia não. Já vai pro caderninho de anotações, e fica aí um grande abraço.
Raul Longo
Pouso da Poesia
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