A prisão administrativa de um controlador de
vôo no sábado, por insubordinação, o afastamento de outro, integrante da
associação dos profissionais da área, o ambiente hostil de trabalho e a falta de
qualificação de alguns dos trabalhadores do setor estão causando apreensão entre
os controladores do Aeroporto Internacional de Salvador.
“Os passageiros estão correndo riscos”, afirma o
controlador afastado. “O clima está muito tenso.” De acordo com ele, o
nervosismo começou a se instalar há cerca de três meses, na época do chamado
“apagão aéreo” que ocorreu no fim de 2006. “Nossa categoria chegou a mostrar os
benefícios que a transição do controle aéreo traria para os civis, o que motivou
um início de perseguição, ainda que velada”, afirma. "Fui o primeiro a ser
afastado, pouco antes do Carnaval, e até agora não me foi explicado o motivo
disso.”
Ele conta que tem 21 anos de experiência no
controle de vôos e que sequer foi avisado - ou alertado - sobre a possibilidade
de afastamento. “No dia, só falaram que eu ia ser afastado da função”, lembra.
“Acabei sendo transferido para um setor que não tem nada a ver com o que estudei
e pratiquei a vida toda”, afirma.
O controlador relata que, no fim de fevereiro,
entrou com um mandado de segurança no Ministério Público para tentar reaver sua
função. O processo ainda está correndo. "Para se ter uma idéia, há colegas que
entraram com pedido de habeas-corpus preventivo, para evitar que sofram
punições”, conta. “O ambiente de trabalho está horrível, o que favorece os
incidentes - e até acidentes.” De acordo com ele a prisão do colega, no sábado,
é mais uma prova da perseguição. "Ele é um cidadão tranquilo - forjaram coisas
para incriminá-lo”, acusa.
Segundo colegas do controlador preso, ele foi
acusado de insubordinação por apontar, em relatório, os problemas enfrentados no
local, como a incapacidade de colegas para trabalhar nas funções que estão
desempenhando. “Ele listou coisas que todo mundo sabe, nada demais”, conta um
colega, que também não quis se identificar.
A Aeronáutica não confirma o motivo da prisão,
alegando querer preservar o profissional. Segundo seus colegas, a punição deve
ser encerrada no dia 27. Apesar do descontentamento dos controladores com o
comando da Aeronáutica, o controlador afastado descarta que a categoria esteja
interferindo no tráfego aéreo nacional. “Não é preciso que haja sabotagem de
nenhuma ordem para que as coisas não funcionem - as coisas estão bem ruins
mesmo”, diz, em um dos poucos momentos de descontração.
“Tudo o que está acontecendo agora faz parte de
nossa rotina há tempos”, afirma. “A diferença é que depois do acidente com o
avião da Gol a imprensa passou a prestar mais atenção na realidade das nossas
condições de trabalho.” Ele conta, por exemplo, que quedas de energia - como a
que ocorreu em Brasília no fim de semana, causando novo caos no sistema aéreo
brasileiro - e invasões de pista (a do Aeroporto de Congonhas foi fechada por
causa da entrada de um cão) não são tão raras. “Lembro de uma vez que um piloto
teve de adiar uma decolagem por ver, na cabeceira da pista, um casal fazendo
amor.”